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Quarta-feira, Janeiro 28, 2009  

Estranha essa estrada comprida e veloz. Sem tremas, a tranquilidade já não se encontra sem antes muitas voltas e muitos quereres e muitas coisas guardadas emboloradas cheias de mofo em volta de pequenos gestos de hipocrisia, de auto-sabotagem, de auto-idolatria disfarçada de um silêncio de não se ter o que dizer.


Todo o não dizer enfiado traquéia abaixo, sem ar, sem tubo, só apnéia, só midríase, sem grandes heroismos, sem grandes sonhos, aspirações, só muitas filhas e mulheres e pais e irmãos que se perderam uns dos outros entre esse mundo e qualquer outro que se acredita existir, mesmo que ele não exista, vidas que escorregam miséria abaixo, pertences que nunca mais serão entregues, que irão talvez encontrar outros pertences solitários e cheios de valor inestimável. A angústia de não poder dizer.


E chorar tanto depois de tanto tempo sem sentir nada e se perder no meio de si. Entre aquilo o que se é, aquilo o que se deseja ser e aquilo contra o qual se luta para não ser. Mas se é.


Tempos ingratos, sem verdade, sem brisa, sem tudo aquilo o que não volta e o que desejamos tanto (e secretamente, sempre) que voltasse, para que pudessemos cometer todos os mesmos erros, mas dessa vez sem sobrar nada por dentro, sem viés, sem nada, tudo tão escuro que arda os olhos. Suficiente pra quem vai ter sempre que conviver consigo, entre a culpa e uma noite pra sonhar com alguma coisa bonita e contínua. Da qual seja impossível recordar, mas que seja linda e em sépia.


Recuperar alguma coisa em uma galeria de obras inacabadas, todas faltando pedaços, porém cheias, porque chega, porque não se pode ter o que não foi dito, o que não ficou claro, porque nunca fica, porque tudo são pontos de vista, mesmo a ciência, mesmo a matemática, e um dia escrever uma carta. Uma pra cada um. Que já se foi e não pode mais responder. Que não soube o que aconteceu depois que abandonou tanta coisa dentro de tanta gente. Uma sopa de soldadinhos de coração, que batem em retirada, rabinho encolhido pra debaixo do cobertor de tão pouca quantidade de vida mas já tão carregada de plágios e imitações baratas de poucos centavos daquilo que um dia foi, de fato, produzido.


Querer secar um oceano de importâncias entranhadas assim, de uma vez só, com um pedaço velho de pano de chão.


Difícil viver.

Morrer, então, talvez nunca.

   posted by Fernanda at 1:35 AM (imagens)

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Segunda-feira, Março 19, 2007  


Canta essa música comigo


A cidade, mal dá tempo.
As pessoas, só nas conveniências.
E não é sempre assim?

Mas têm um charme singular (ambas). Um silêncio, uns cuidados meio mais ou menos, meio displicentes. Mas cuidado. Como quem cuida da calçada em frente de casa. A calçada, aliás, é irregular. Mas até isso é necessário pra beleza toda. Beleza com uma sofisticação simplória, um troço entre o cru e o artesanal, alguém explica melhor? Árvores se debruçando umas sobre as outras, de cada lado das avenidas. Bosques despretenciosos. Um museu famoso, as cores das flores, uma borboleta me seguiu de casa até o trabalho um dia desses. É como se a gente soubesse o que vai acontecer depois. Mas aí, bem na hora da nossa deixa, aparece lá no fundo uma pessoa que a gente não via há tanto tempo e improvisar vira o substrato dos dias. Que quase nunca são espetaculares. Mas são sempre cheios de coisas que não existem na vida real.

Curitiba tem um cheiro de novo. Dá vontade de usar a cidade inteira, até a última linha da última folha do caderno novo. Mas como se escreve nessa língua? Quando mal se chega, já se sabe, sem querer se chama os piás, os tigres e as outras espécies que chegam sem avisar e nos chamam pra churrascos, batatas, passeios, noitadas e outras gentilezas mil. É um sapato novo tão bonito e lustroso que se tem pena de gastar mas que, por isso mesmo, se torna um troço irresistível. Respirar fundo na floresta.

O calor dessas últimas semanas. Dizem que carioca em cidade fria só pode dar nisso. De vez em quando chove. E (nunca achei que fosse): é bom. Molha a barra da calça que acabou de voltar da lavanderia. Mas não tem importância. Tá na hora do meu ônibus mesmo. Que passa tão depressa pelo estádio: os rapazes todos empoleirados tentando conseguir um vislumbre de paixão. A paixão.
Faz falta, essa porcaria. Não faz falta, o mar. Não faz falta, a comida de casa. Não faz falta, a informalidade. Mas a ternura. Essa a gente vai pegando emprestado, meio sem graça, de gente com quem não tem intimidade. Em doses homeopáticas. Às vezes faz efeito no meio da tarde e dá um barato enorme.

Andar sem pressa até uma das praças. Esqueço. Me esqueço. Nem lembro mais. Penso em todas as pessoas, as poucas pessoas, os poucos rostos, poucos passos, tudo parece deserto. Tanta gente querendo ir pra longe quando a calma dos dias tem valor inestimável. A gente diz tanta bobagem. Quanta besteira, quanta merda um indivíduo precisa falar pra estar exatamente onde quer estar? Acho que não precisei falar muito. Faz sentido, a noite, a dor, a textura espumosa e consistente da história futura. As condutas, indefinidas. Os planos, dependentes de milhões de partículas de variedades de variáveis de fatores incosistentes. Mas o que acontece. Ah, o que acontece. Isso, sim, é que cala as interrogações. Eu não sei se foi no momento certo ou se o resto todo é que estava por demais errado. Mas encaixam, as proporções, as vontades, os cotidianos cinzas ou ensolarados, tanto faz, há sempre paz. Qual o plural de paz?

A padaria, a lavanderia, a sorveteria, o mercado, a feirinha, o restaurante a quilo, o shopping e as rotinas, os bom dia's, o papo de elevador e de táxi, tudo se estabelece, como em qualquer lugar do mundo. É fácil e completo, quando você vê já está dentro. E é por isso que eu fico repetindo insuportavelmente que nunca é tarde. Nunca é. Pra mudanças ou pra reafirmações. Vivendo e morrendo é isso o que a gente compra quando decide buscar essa coisa que não sabe o que é. Mas é um preço e muitas vezes não sobra troco e se volta pra casa sem nada, sem nada palpável, mas com tanto, tão grande que não coube em nenhum lado a não ser o de dentro.

Então dance. Mas não me chame. Porque eu danço sozinha, posso dançar na sua frente, você vai rir, eu vou fechar os olhos e rir também, mas danço só. E descobri que é assim, exatamente assim, que se descobre o mundo.
   posted by Fernanda at 6:45 PM (imagens)

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Quarta-feira, Janeiro 17, 2007  


Incidências


Sopra velas, veste roupas ao avesso, desaparece sem deixar rastros, esmaga 10 pessoas e depois volta tudo. sente medo de cair pra cima, fica sem nexo, sem reflexo, sem plexo. fim. não sobrou nada, nem entre os becos fugidios das lembranças. que, aliás, lembra tanto que erra (de novo) o caminho de volta pra casa. a distração é um antídoto alternativo à mediocridade. quer dizer, quando se é alérgico aos outros, os convencionais. palavra que, por si só, já resume uma certa náusea.

disperdiçar horas e dias e anos fazendo backup de uma vida inteira. e enquanto se salva (a si e aos outros), o que se vive? ao redor tudo já saiu de moda, de compasso. se alimentar de hipocrisia. mas ir dormir e sonhar com o antônimo dela. (qual é?) quem busca a verdade vai pra forca. então é melhor mesmo se acostumar com as ilusões.

quem pagou mais senta na melhor mesa e dança com a moça mais bonita da escola. é assim.

ei. te chamei baixinho. pra perguntar: qual é o nome. da palavra. que não precisa falar mas conta tudo. pra quem não precisa ouvir pra saber.
os sentidos se perderam das intenções.

você me mandou uma página rasgada:
querido diário. hoje aprendi a fingir que está tudo bem, que já até esqueci o que era e que não espero nada em troca. mas em compensação aprendi também que já esqueci mesmo o que era e que, depois que fui de bicicleta lá pra cima e vi a cidade inteira brilhando, tudo estava bem mesmo. mas quero entender melhor por que é que quando a gente se sente só -
e essa parte estava rasgada. mas acho, amor, que eu não ia poder te ajudar nessa empreitada. a solidão é uma língua a parte. e a gente sempre acaba conseguindo traduzir tudo de volta pra nossa.

a verdade é que não existe algo como a verdade. mas, a partir disso, o que perseguir?
e trôpego, sôfrego, cambalear entre a promiscuidade de ideais e o cru absoluto.

faltou luz, meu bem. fica conversando comigo até voltar. recebi correspondência: não consigo ler direito à luz de velas. ih, e se entra um bicho? melhor fechar a janela.
se lembra quando a gente escreveu que os nossos sonhos não se esquecem da gente? e de quando ficou em pé olhando o mar e esperando ele se decidir se queria ficar perto ou longe da gente? o que foi que ele escolheu? até hoje não descobri. estava chovendo uns pingos grossos que molharam o papel onde escrevemos. sobre os sonhos, sobre os sonhos. (atualmente, parece que tudo é sobre a mesma coisa.) deixamos lá, ficamos vendo eles se diluíram metade na chuva, metade no mar. a fome era muita: cantarolamos umas marchinhas de carnaval pra enganar o estômago. não foi? depois juntamos as coisas e fomos embora, a areia grudava no pé e até hoje não consegui tirar tudo o que ficou preso em mim daquele dia.

mas tudo isso, isso tudo, pra me despedir. comemora por mim, a passagem do ano. que já passou e foi tão de mansinho que a gente não notou. e, por favor, me manda perguntas e um iluminador. pra eu ver se eu aprendo, de uma vez por todas.
o que é indispensável nos dias de hoje.
e o que eu tenho que saber.
sobre esse troço volátil que é a vida.
   posted by Fernanda at 1:20 AM (imagens)

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Sábado, Outubro 07, 2006  

Le premier bonheur du jour


Ficou tudo tão inapropriado que uma gota quente submergiu de dentro das células de dentro dos vasos de dentro das vísceras e veio escoar-se a si própria por entre os cílios, cheios de rímel à prova d'água. A sensação de abandono era tamanha que não restou alternativa senão abandonar tudo aquilo: tomar coragem, impulso, um último gole de whisky e correr, muito veloz, até encontrar a janela aberta. Saltar sobre o parapeito e voar pra bem longe. Prometer-se descobrir quem era o último, e que cheiro, que cor teria o nada depois dele.

Tocavam umas canções tão bonitas da françoiz breut que dançar e se lembrar de tudo era inevitável, bem devagar, e sorrir tão comprido quanto a distância entre uma vontade e o prazer.

Tive um sonho: a gente chorava com medo do inseto e ele chorava com medo da gente. Só que a gente acordou e foi comer cuca de banana com suco de maracujá fresco pra se acalmar e recuperar a força pra arrastar os movéis de um canto pro outro até o fim dos tempos.

Me ajuda a lavar essa louça toda? Prometo que depois a gente fica a tarde toda molhando as plantas até dar a hora da chuva, que eu finjo não gostar. Dizem que é pra te manipular, mas você olha o meu cabelo molhado, a roupa ficando transparente, me aperta contra o seu peito e diz que é tudo charme, que eu nasci e vou morrer fazendo charme, e eu me controlo pra não achar graça, falo pra você não fugir do assunto, você não diz nada e aperta os olhos, aperta a chuva e você olha bem através dela, abre a boca não porque tem sede mas porque eu sabia e a provisão vem sempre de cima. (menos música: vem da onde, música?) eu digo vamos pra dentro porque tenho medo dos raios, e desses eu tenho, não é charme, você sorri. arranca um ramo de capim limão pra fazermos chá e me leva pra dentro, me leva pro barco de papel, porque só assim a gente consegue sair de casa no meio desse dilúvio. deixa eu pegar o guarda-chuva. esfriou, é melhor você levar teu casaco. mas agora já saímos, vamos perder a hora. (pai, quando se perde a hora, pra onde é que ela vai?) então deixa, qualquer coisa você veste o meu casaco. mas aí você é que vai ficar com frio.
não tem importância.

Dizem que nao tem solução, dizem que é assim mesmo, dizem tanta coisa que quase sempre é certa. Queria que perdessem a voz.

Tornar-se mais velho, mais chato, mais cansado. Injusto?

Mais c'est pas pour ça. Tudo o que sobra, no final (que nunca é o fim, nunca, nem quando param de bater os corações), é o som indecifrável da tevê do vizinho, um passarinho desgarrado da família alardeando o desespero, uns pingos de sereno na planta da varanda, um barulho de motor e pneus de carro voltando pra casa muito depois da hora; alguém espera, ninguém espera. Tudo escondido por trás dos tijolos que vão se empilhando em cima dos nossos sobrenomes. O que sobra são essas coisas sozinhas. Ninguém suporta mais ouvir falar: gente sozinha, ideal sozinho, dormir sozinho, falar sozinho. Até virar quase um zero mesmo (a quantidade de anulações coletivas tende ao infinito).
O vazio é um lodo espesso e intransponível que corre por dentro de encanamentos, artérias, postes, fios, veias, troncos de árvores. E vai se espalhando depressa, se estagnando por entre réplicas e tréplicas ou silêncios irreversíveis. A solidão é um troço que faz a gente abrir a geladeira sem estar com fome ou sair por aí com umas pessoas bem barulhentas pra tentar estar junto. Pra asfixiar o vácuo de dentro que não está bem lá dentro, e sim nas superfícies, nos contornos dos corpos, das coisas, nos dias nublados muito claros que contraem os olhos.

Que nem quando chegamos. Tinha tanta coisa quebrada que tivemos de enrolar as pernas e os braços em papel bolha pra não acabarmos tendo de ir ao hospital levar ponto. Num emblema, dançamos uma valsa antes de começarmos a consertar o mundo. E prometemos dançar outra depois que acabássemos. Faz uns trinta e sete anos isso e ainda não dançamos a segunda valsa.

Tanta gente se separou desde então. De outro indivíduo, de si próprio, do mundo. Tanta depressão foi escrita, fotografada e filmada. Tanto sexo foi feito pra tentar tapar um buraco que ia rasgando tudo de um pólo ao outro da terra. Tanta mentira foi contada com aquela desculpa cretina de não magoar o outro. Que por enquanto chega-se ao extremo de não saber mais. Se ganha-se mais dinheiro pra realizar uns sonhos que vão exigir que se ganhe mais dinheiro. Se queijo mussarela engorda muito. Se vale à pena se sentir tão triste por tanto tempo pra depois ficar tudo bem (Se é que vai). Se rabisca-se todas essas conclusões desamparadas e se volta-se ao zero. mas onde fica mesmo, o zero?
Já teve tanta coisa depois dele.

Regarde, les étoilles. Teve aquele beijo naquele show naquela noite que virou dia sem que a gente percebesse.

(a verdade é que daqui a uns 40 anos vamos nos lembrar desse beijo. e, do resto, quase nada.)

Podia ser tudo simples como nas ruas de cimento onde se aposta corrida de bicicleta. Joelhos ralados, mercúrio cromo, band-aid e pronto. No dia seguinte, corrida de bicicleta.

Agora é assim: nada combina com nada.
Mas não se preocupa, vou voltar lá pra te buscar. Lá onde perdi:

meu balão de papai noel pro céu
minhas lágrimas pra água da piscina
minha sandália pra correnteza do rio
meus sorrisos pra cada uma das suas gentilezas, olhares, papéis de embrulho bonitos, escolhidos com carinho.

meus caminhos
pra cada porta que se abra longe daqui.
   posted by Fernanda at 1:29 PM (imagens)

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Quinta-feira, Maio 18, 2006  


um dia chega


cansaço, cansaço.
porra, sabe, exaustão. de ficar rompendo com a linguagem o tempo todo. procurando a ciência nas condutas. as meias-palavras pra dar as notícias, um ritmozinho pequeno, verde, no cantinho da tela. que dê uma pontinha de esperança brilhando no olho da pessoa, acordando dentro do peito e faça a gente continuar.
acontece que às vezes a gente sai tão pó porque perdeu. nesse caso, saber perder é cominutivo. um monte de pedaços de gente que vão-se embora (em si e no choro dos outros), mas que acabam se acumulando debaixo da nossa porta, contas que a gente paga com multa, fica na fila do banco, perde um tempo enorme em silêncio e burocracias: encontrar um espaço no armário pro luxo de guardar cada obstrução.

depois escolhe a roupa com que vai sair de casa no dia seguinte. o dia em que te que agradecem alguma coisa que: imagina, não fiz mais do que minha obrigação. e é assim. continua, a vida, dizem.
próximo, caixa livre.

ficar achando tudo tão monótono: o alarme tocar todo dia na mesma hora, ter que sair cedo pra não pegar trânsito, ter que comer direito porque não dá tempo de não ter saúde. ou encontrar a saída: morrer não é o ideal. não é suficiente, morrer é banal. morrer é aquilo que a gente faz sempre que, pra não sofrer, contrata um exército de argumentos e de alegorias de auto-piedade pra poder ficar lá atrás de tudo, só ganhando dinheiro e quebrando as próprias pernas por aí. morrer é quando a gente deixa de. só que chega uma hora em que.

todas as tendinites valem à pena. sim. dizer as coisas fora do seu campo semântico. fazer festas surpresas pelo mundo. deixar-se flutuar um pouco nos equívocos dos outros. todos os cacos de vidro, toda a maresia grudada na janela, todos os insetos esmagados e os líquidos deles escorrendo na sola do sapato novo.
todos os atestados de óbitos que a gente entrega pras senhorinhas miúdas que há poucos minutos estavam ajoelhadas pedindo pelamordedeus.

(essas coisas que fazem qualquer um achar que virou um deserto.)

só que ficar sentindo o vazio duro em volta do ar vai dar muito trabalho. vai ter que colecionar figurinha que nem criança pra tentar sentir o troço todo de novo e, enfim, conseguir começar de uma vez só. senão vai ficar entrando na água aos pouquinhos, molhar só a barriga, depois os antebraços, o rosto, a nuca, e não vai nunca aprender como é arriscar um choque térmico.
ver que isso tudo é arcaico. essa sabedoria redundante, isso de ser melhor, de se tornar indispensável, de tentar dormir sem culpa. é só reprise de novela ruim.
ninguém quer.

o que se quer é além. a salvação em qualquer troço condenável, lamentável, a riqueza da escória. alguma coisa eterna que não dure mais do que cinco minutos pra não dar tempo de enjoar, de desconfiar, de desprezar. alguém inatingível na palma da mão.
e, principalmente, não absorver nada, não reter coisa alguma. ainda assim, chegar ao fim do dia em iminência de tudo. de tanta coisa que tem dentro.

uma vida que consiste em pausas pra reconsiderar as escolhas, de trás pra frente.
entre as pausas, a ação em si: morrer, né.

achar. rasgar. burlar.
(morrer é um troço solitário pra caralho.)

não fingir que nada está acontencendo.
isso, sim, isso é conseguir.
estar lá na frente pra ver. pra descobrir o que vai ter depois.

depois que não faltar mais nada.
   posted by Fernanda at 4:53 PM (imagens)

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Domingo, Fevereiro 19, 2006  


despertador.


levantar-se antes do sol quase sempre quer dizer que é hora de emergir. assim: tornar-se emergência de si, porque o seu amor não tem mais muito tempo, não tem mais as mãos limpas, o olho doce, as roupas leves.

Um gole enorme de ar que sufoca mais do que a falta dele e, enfim, só por isso, perceber: o mundo girou sem precisar de você dentro dele. mas sem fazer alarde, sem mandar beijos no ar, sem discutir as repercussões disso, voltar a si. cumprir promessas, chegar no horário, saber.

saber.
saber.

institucionalizar a própria auto-defesa, os medos infundados (não os são todos?), o sentir-se-ridículo-chorando-antes-de-dormir. parece difícil, requer coragem, dizer o que se sente. que diferença faz? uma luz forte que deixa a visão cheia de falhas, a verdade é isso. e é engordurada, pegajosa. tem cheiro enjoado de festa de criança pequena.

no final, as cordas arrebentam, as molduras racham, as palavras. poxa.
as palavras desaparecem. resta só um latifúndio improdutivo pra cobrir com querosene: assistir tudo queimar. dói um pouco, se for preciso, mas acaba. e depois? tornar-se nômade: abandonar; não é o que se deseja?

amanhã tudo muda, invertem-se funções, desinventam-se escolhas, enfia-se um saco pela cabeça até não haver mais oxigênio pra alimentar o fogo que a gente tem nos olhos, que se espalha pela nuca, que se transfere entre as bocas.
asfixia é hábito, anestesia é vício. e tempo é abelha: pica quando é incomodado.

esperar tanto mas tanto que, de repente,
não ter mais por quê.

estar livre.

ouvir um piano dedilhado. longe, quase nada. seguí-lo.
seguir sempre.
em frente.
   posted by Fernanda at 7:28 PM (imagens)

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Terça-feira, Dezembro 20, 2005  


vou.


aeroporto. samba. de orly.

vai me esperar com umas tulipas, vai.
   posted by Fernanda at 1:28 AM (imagens)

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Quarta-feira, Novembro 02, 2005  


Finados


Não há mais investigação alguma
a ser realizada.
   posted by Fernanda at 11:54 PM (imagens)

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Sábado, Outubro 22, 2005  


Obstrução


Foi a primeira vez que escreveu seu nome na neve, sentindo o dedo queimar e se dessensibilizar. Tem experimentado borboletas em seu estômago, dia sim, dia não. Estamos fora de controle, percebeu? Com todas as armas, aquele arsenal disparando qualquer alarme por onde passávamos. Estávamos anestesiados. Foi preciso um holofote pra que saíssemos daquela negação estúpida e agora dá pra enxergar tudo porque a era da hipnose, ó, acabou.

Sintetizar é fácil, detalhar é fácil. Mas e dizer a verdade? Por via das dúvidas, queria ter escrito aquilo: não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer. (As melhores idéias que já tive foram roubadas dos outros.) Mas é a única coisa que não cabe dentro do hiato. Porque sempre acaba da mesma forma: eu choro, você diz que me avisou.

Mas não te avisaram: não se perde pessoas, o que se perde é um ritmo sincrônico. Há muitos anos ouvi: o nosso tempo já passou. Foi um prego que perfurou a minha membrana timpânica e transfixou a base do crânio. Quando puxei de volta não drenou nada. Mas dói até hoje. Faço compressa de água quente quando o dia termina; só melhora quando acordo.

Acordei quase no final do filme. Quando ela diz pra ele: "pro seu pai só existiram duas mulheres no mundo:
a sua mãe
e todas as outras."

Me deu saudades, isso.
Dos tempos em que a gente amava em silêncio, de quando a neblina era bonita e tinha cheiro de camomila.
Agora, tudo na periferia. É preciso muito barulho e esgotamento para se provar qualquer coisa. Virei a pessoa mais fotofóbica que conheço.

Decidi aderir à greve de importâncias. Só porque o luto ficou justificável, logo agora que não sei mais combinar tons de preto entre si. Fiquei deitada, recebendo desapego intravenoso. Você não quis me transfundir o seu, arranjei quem quisesse. (A verdade, que lamentável, é que sempre vou me importar.)

Sobrou uma poça. De contradição e incerteza. Quem não é?
Vamos continuar sendo orgulho e desmatéria, uma sucessão de eventos duvidosos que parecem integralmente novos. Mas são os mesmos de sempre. Fazem a gente pensar: como a nossa vida é medíocre. Articular palavras vai continuar sendo uma prática obsoleta. Conformar-se: promessas são quebradas antes de serem feitas.
Ao menos não preciso interpretar mais nada. Despertar de um sonho ruim.
Ironia: descobri como se diz "decepção" em ortografia.

Tem coisas que todo mundo sabe: ler música, tirar sangue de artéria, escolher maracujá. Tem coisas que não se ensina.

Queria estar acessível, queria ser transmutável. Mas me desmascararam.
Escorri no vão.
Entre o trem e a plataforma.
Entre o que já foi e o que nunca mais.
   posted by Fernanda at 2:52 PM (imagens)

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Quinta-feira, Outubro 13, 2005  


Os nervos vermelhos


As pontas aparadas, deliberadamente. É ponta ou é aresta? De cabelo eu sei que é ponta, mas e de chapéu? Cantei que se não tivesse 3, não seria o meu. Porque foi o dia mais quente da primavera.

Nós duas estalando, fritando, nos liquefazendo enquanto deslizávamos, em câmera rápida, entre os postes de luz apagada, porque já era dia. De mãos dadas, duas meninas de mãos dadas, não nos importamos com o que significa hoje em dia. Porque as nossas pupilas, ai, as nossas pupilas. Tão grandes que ninguém percebia que o olho dela era claro e o meu, não. Só me lembro que tudo foi passando, passando, o sol batendo nas janelas, as faxineiras se aventurando lá no alto pra limpar os vidros, a lagoa acordando, a hípica, tudo, mas tudo muito veloz. E depois acordei numa salinha; a enfermeira veio me chamar, disse que eu ia ter alta. Tentei perguntar a um rapaz o que é que tinha me acontecido.
Ele não sabia.

Voltei pra casa. Senti uma exaustão que não fazia sentido, e comi um pãozinho com manteiga porque já devia estar há muito tempo em jejum. Me deitei. Nem-sei-quantas horas depois o telefone me acordou. Fui me lembrando, devagarzinho, me lembrando. Quanta merda. Estava com febre, um pouco. A cabeça em combustão espontânea. Acendi uma vela pra São Tomé porque, se eu não visse, nunca ia conseguir crer.

Dizem os mais velhos que o problema do mundo é falta de fé.
Acho que o problema da fé é a falta do mundo. Inventaram esses recipientes que se fecha a vácuo (pros biscoitos não ficarem moles, sabe?) mas alguma coisa se inverteu e quem ficou duro mesmo fomos nós. Se você prestar atenção, dá pra escutar o barulho do indivíduo do lado sendo mordido, parece salgadinho de criança. Mas também, uma vez que a gente é quebrada, entra em contato com a saliva quente e também derrete. E foi por isso que te chamei naquele dia pra ver um filme do Lynch. Ver se a gente parava de ser tão rígida e se tornava à prova d'água quando chovesse, já que todos os meus guarda-chuvas entortam. Ou então somem mesmo. Teve aquele dia que os três foram ao maracanã e cada um levou o seu guarda-chuva. Era torrencial, disseram que era culpa do Nelson Rodrigues. E aí todos os 3 esqueceram seus guarda-chuvas lá, o time deve ter vencido.
Tá vendo como eu não me esqueço das histórias? Eu também amo muito vocês, sempre, pra toda a vida. Vou deixar isso escrito em algum lugar, com a minha letra, não importa se é cafona. Agradecer por todos os pedaços de bolo de laranja com chá de capim limão. Fico em carne-viva só de pensar.

Agora, e se o tempo for um fio mesmo?
Se for, não há mais solução e certamente tem alguém feliz com isso; acho que até já sei quem. Fui balançando a cabeça, olhando pro chão, pensando: estou me repetindo, estou me repetindo. Então fui encontrar com eles no restaurante mas, quando cheguei, sentei no bar. Não falei com ninguém porque queria fazer uma promessa antes.
Sentei naquele banco alto, que deixava os pés balançando, e olhei lá dentro dos líquidos de cada garrafa na prateleira. Falei: nunca mais vou topar nada. Acho que ninguém ouviu; melhor assim, sem testemunha. Pra não vir ninguém catar os meus pedaços depois, e dizer: você sempre soube que isso ia acontecer, que coisa horrível de se escutar. Mas quanto a você, tenta, sim. Nunca entendo nada do que você me escreve mesmo. E me desculpa se nunca te deixei me dar um beijo. Devia ter deixado.

O menino, tão preocupado:
- Doutora, é que minha mãe tem muito problema de nervos
- Mas ela tem algum outro problema, pressão alta, diabetes?
- Não, só de nervo mesmo.
   posted by Fernanda at 8:55 PM (imagens)

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